Anestesia e inox
O vazio que a anestesia cria e o frio da mesa de inox* é um ashram da mais profunda meditação. Senti-me livre de barreiras, censuras e conceitos. Dias antes desvaziei a mochila pronta para embarque com destino inquestionável durante anos de fantasia. Na anestesia e no inox, não há senão a assepsia, um pensar limpo, na certeza do momento certo de dar o sinal, e descer na estação Luz. Esta Luz clareou, não apenas uma esperança, mas o hoje real. Não se escolhe o momento das mudanças. Tem que estar pronto e atento e sem impedimentos da desvairada lógica do querer contaminado por incertezas, dependências e medos.
Assim, deleto todos meus textos de lamentações e conteúdos fantasiosos. Namna** afirma “não são palavras, sejam escritas, ditas ou choradas, são as atitudes que testemunham a dimensão humana”.
A anestesia e o inox e a retirada do “ruim”*** fizeram, não obstante o incômodo persistente pós cirurgia, sentir-me em pé, sentir-me “eu”. As imagens no écran da memória estão alteradas, limpas e abertas. Assim estão os atuais desejos e sonhos. Tudo parece novo, mas não assusta. Saberei preencher de modo correto (lembro do “seja coreto”...). Sinto-me acomodado no banco do trem em uma viagem com novo destino, não apenas em busca da felicidade, e sim, um humano feliz em viagem.
* “inox” alusão a mesa de cirurgia ** “namna” é namna kalan, “sagank.blogspot.com”, texto “relatos”
*** “ruim” refere-se a carcinoma
12/03/2009 “cartilhadoespelho.blogspot.com”
Sábia a afirmação de Namna,palavras são apenas palavras se perdem no tempo,atitudes se eternizam.Corajosa sua atitude:retirar o "ruim",olhar para a frente e reinventar a vida.
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