segunda-feira, 18 de maio de 2009

CARILHA DO ESPELHO

Anestesia e inox

O vazio que a anestesia cria e o frio da mesa de inox* é um ashram da mais profunda meditação. Senti-me livre de barreiras, censuras e conceitos. Dias antes desvaziei a mochila pronta para embarque com destino inquestionável durante anos de fantasia. Na anestesia e no inox, não há senão a assepsia, um pensar limpo, na certeza do momento certo de dar o sinal, e descer na estação Luz. Esta Luz clareou, não apenas uma esperança, mas o hoje real. Não se escolhe o momento das mudanças. Tem que estar pronto e atento e sem impedimentos da desvairada lógica do querer contaminado por incertezas, dependências e medos.  

Assim, deleto todos meus textos de lamentações e conteúdos fantasiosos. Namna** afirma “não são palavras, sejam escritas, ditas ou choradas, são as atitudes que testemunham a dimensão humana”.

A anestesia e o inox e a retirada do “ruim”***   fizeram, não obstante o incômodo persistente pós cirurgia, sentir-me em pé, sentir-me “eu”. As imagens no écran da memória estão alteradas,  limpas e abertas. Assim estão os atuais desejos e sonhos. Tudo parece novo, mas não assusta. Saberei preencher de modo correto (lembro do “seja coreto”...).  Sinto-me acomodado no banco do trem em uma viagem com novo destino, não apenas em busca da felicidade, e sim, um humano feliz em viagem.

 *     “inox” alusão a mesa de cirurgia                                                                                                        **   “namna” é namna kalan, “sagank.blogspot.com”, texto “relatos”

 ***  “ruim” refere-se a carcinoma                                                                                                  

12/03/2009                                                                                                    “cartilhadoespelho.blogspot.com”

Um comentário:

  1. Sábia a afirmação de Namna,palavras são apenas palavras se perdem no tempo,atitudes se eternizam.Corajosa sua atitude:retirar o "ruim",olhar para a frente e reinventar a vida.

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